Irmão, acho que aqui precisamos fazer uma distinção essencial. Quando Jesus confronta o Sinédrio, Ele não está condenando toda tradição, mas as tradições humanas que anulavam o mandamento de Deus (Mc 7,8). O problema não era existir tradição, mas tradição que contradizia a revelação divina.
Se o princípio fosse “somente o escrito é autoridade”, então o próprio Antigo Testamento estaria em dificuldade, porque durante séculos a revelação foi transmitida oralmente antes de ser escrita. A fé de Israel não começou com um livro encadernado, mas com uma tradição viva.
Sobre 2 Tessalonicenses 2,15, o texto não diz que as tradições orais eram circunstanciais ou culturais. Paulo manda conservá-las. O mandamento não é “conservem enquanto eu estiver vivo”, mas simplesmente “permanecei firmes”. Se essas tradições não tinham caráter normativo duradouro, por que o apóstolo ordenaria que fossem guardadas com a mesma força do que foi escrito?
Quanto à confiança exclusiva no texto, surge mais uma questão: quem definiu quais livros compõem a Bíblia? A própria Escritura não traz uma lista inspirada de seus livros. O reconhecimento do cânon foi um processo eclesial. Se toda autoridade humana é falível a ponto de não poder transmitir fielmente a revelação, como podemos ter certeza de que o Novo Testamento que você segura é o correto?
Sobre Judas, Balaão, Eli e os reis infiéis: a existência de líderes infiéis não anula a instituição da autoridade. Havia maus reis em Israel, mas o trono de Davi continuava sendo instituição divina. Havia sacerdotes corruptos, mas o sacerdócio não foi abolido por isso. O abuso não destrói o princípio.
Quando você cita “maldito o homem que confia no homem”, o contexto fala de confiar no homem no lugar de Deus. Se levado de forma absoluta, ninguém poderia confiar nem mesmo nos apóstolos, nem nos evangelistas que escreveram os textos sagrados.
A questão central é: Cristo prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja (Mt 16,18) e que estaria com ela até o fim dos tempos (Mt 28,20). Isso mostra assistência contínua, não apenas inspiração pontual de textos.
Se a segurança está apenas no registro escrito, mas cada pessoa pode interpretá-lo, então a unidade visível da Igreja depende da capacidade individual de interpretação. Porém, Cristo orou para que fossem um (Jo 17,21). A fragmentação histórica do protestantismo mostra que o princípio da interpretação individual, mesmo com boa intenção, não preserva essa unidade.
Não se trata de colocar tradição acima da Escritura. A posição católica é que Escritura, Tradição e Magistério formam um único depósito da fé, inseparáveis. O Magistério não cria verdade nova, mas serve ao depósito recebido.
Se a tradição não será usada como critério no juízo, então a própria decisão sobre quais livros são Escritura também não poderia ter autoridade vinculante, pois essa decisão foi tradicional e eclesial.
A questão não é “confiar no homem”, mas crer que Cristo é poderoso o suficiente para preservar Sua Igreja no essencial da fé ao longo da história.
